quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ana Carolina Braga do Blog Hiper Urânio

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http://anacarolinalimabraga.wordpress.com/


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Blogagem coletiva: uma festa para Florbela
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Tormento do ideal
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por Laury Maciel¹
Florbela d’ Alma da Conceição Lobo Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), em 1894. Seus primeiros versos são da época em que fez o curso secundário, em Évora, e que somente viriam a ser reunidos em volume depois de sua morte.
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Malogrado seu casamento, vai para Lisboa estudar Direito e, nesse mesmo ano, 1919, publica Livro de mágoas, que passa desapercebido. Igual destino teve a obra seguinte, Livro de Soror Saudade, dado a lume em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e a publicá-la ao acaso. Recolhe-se a Matosinhos, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus versos entram a dar sinais de exautão. Morre, segundo alguns estudiosos, de suicídio, em 1930.
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Toda a produção de Florbela entre os anos de 1915 e 1917 - tanto em poesia como em contos
- foi escrita em um livro de mercearia ao qual ela deu o título de Trocando olhares. Deste livro ela separou 33 poemas para publicar sob o título de O livro d’ ele, o que não aconteceria.
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Publicou os livros de poesia: Livro de mágoas, 1919; Livro Soror Saudade, 1923; Reliquiae, 1931; Charneca em flor, 1929. E contos: As máscaras do destino, 1931; Dominó negro, 1931.
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Talvez Tormento do ideal, título de um dos sonetos de Antero de Quental², de quem Florbela Espanca foi discípula - e que recorrera ao suicídio, na impossibilidade de respostas para as suas indagações de ordem teológico-existencial -, possa lançar tênue luz sobre a trajetória filosófica e moral da poeta, da qual certamente a base é o amor. “Dele brotam - como notou bem Antônio Freire - todas as qualidades e defeitos da poetisa; nele, até, mergulha raízes profundas a prodigiosa inspiração poética que a imortalizou como artista.”
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Portadora de uma insaciável sede de amar, logo convertida em ideário de vida, tem início sua dolorosa tragédia: a impossibilidade de expressar, à perfeição, este estado de alma.
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Feliciano Ramos, em sua excelente História da Literatura Portuguesa, assinala que “Escolheu (Florbela Espanca) o soneto para transmitir a sua perturbante e sombria interioridade. Dentro dessa pequenina fórmula métrica e estrófica, Florbela move-se e realiza-se com todo o à - vontade: crê-se que os seus versos registram com estridência dramática o cruciante viver de sua ‘alma trágica e doente’ (soneto Ao vento). E, no entanto, embora os sonetos de Florbela sejam angustiosos e contagiantes, ela tristemente verifica a impossibilidade de efetuar a comunicação integral de sua desventura: no soneto Impossível, confessa que a sua dor é tão grande que não caberia mesmo em ‘cem milhões de versos’, caso os viesse a escrever.” E continua Feliciano Ramos: “Agitada por eterna ansiedade, está sempre longe de encontrar o que espera: ‘o meu reino fica para além’ dirá Florbela, assediada pelo tormento de constantemento pedir à vida mais do que ela pode dar. Esta ‘inquietação’ de exilada da realidade inspira-lha versos comoventes”.
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Nesse sentido- me parece - é que no mencionado Tormento do ideal (soneto em que Antero traduz, à perfeição, todo o seu pessimismo à Schopenhauer), reside integralmente o drama existencial de Florbela Espanca: a inútil busca da forma para expressá-lo:
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Conheci a Beleza (leia-se o Amor, o Absoluto, a Verdade) que não morre
E fiquei triste.
E, no primeiro terceto, a confissão:
Pedindo à forma, em vão, a idéia/ pura,
Tropeço em sombras, na/ matéria dura,
E encontro a imperfeição de/ quando existe.
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Eis, pois, toda a tragédia de Florbela Espanca. Na base desse perfil moral e filosófico está o amor: dele brota tudo o que a prodigiosa inspiração poética de Florbela Espanca imortalizou, como artista. Desde as primeiras experiências amorosas, aos dezesseis anos, que ela refere como “misteriosa descoberta”, passando por dolorosas experiências sentimentais até o final de sua vida, tudo se converte em atrozes interrogações em seu atribulado espírito cem por cento feminino. Só tem uma certeza: quer amar e ser amada. No soneto Exaltação, assim o cantou: Deus fez os nossos braços pra prender/ E a boca fez-se sangue pra beijar. Esta sede de amar plasmou-a num soneto, pleno de verdade e de beleza, em que o amor feminino atinge os limites do sublime:
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Gosto de ti apaixonadamente
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama / quente.
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A tua linda voz de água corrente
Ensinou-se a cantar… e essa / canção
Foi ritmo nos meus versos de / paixão,
Foi graça no meu peito de / descrente,
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Bordão a amparar a minha / cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa / fogueira.
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E eu, que era neste mundo uma / vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o / Sol!
Águia real, apontas-me a / subida!
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O poema raia ao sublime, mas a poeta, em sua ânsia de perfeição formal, embora tenha encontrado uma luz (o Sol, a Águia real), ainda assim brada por “Um bordão a amparar minha cegueira”.
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Florbela quase não sabe escrever senão sobre o amor: Livro do meu amor, do teu amor/ Livro do nosso amor, do nosso peito…/ Abre as folhas devagar, com jeito, / (…) Olha que eu outro já não sei compor.
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Sempre o amor: Mesmo a um velho eu perguntei: - Velhinho/ Viste o Amor acaso em teu caminho?/ E o velhinho estremeceu… Olhou…e riu…/ (…) E eu paro a murmurar: ‘Ninguém o viu!’.
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Pior: o amor ludibriou-a: Procurei o amor que me mentiu.
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A própria poeta, num auto-retrato, mostra até que ponto o seu temperamento, visceralmente insatisfeito, a fadava à incompreensão: O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez… O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!
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É lícito, pois, diante de tanto sofrimento, que a confissão acima corrobora, admitir-se a idéia de que Florbela Espanca se teria suicidado. Amélia Vilar, uma estudiosa da grande poeta, afirma: Essa neurastenia que, sem dó nem piedade, lhe tumultuava no sangue, tinha de produzir os seus funestos estragos nas lamentáveis conseqüências do suicídio.
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Se colocarmos a questão sob a jurisdição da patologia, talvez Amélia Vilar tenha razão. Mas não. Florbela padece de uma sede de infinito que nem seu invulgar talento pode saciar: um tormento do ideal, que tem a ver muito mais com a verdade literária do que com a patologia.
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A verdade é que o suicídio nunca se provou, por mais que queiram justificá-lo também com uma provável relação incestuosa com o seu irmão Apeles, tragicamente morto nas águas do Tejo, por quem, de fato, votava extremado amor de irmã. Tudo não passou de uma campanha difamatória, como tantas que circularam em torno da poeta.
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Há um testemunho decisivo, definitivo (colhido pelo citado Antônio Freire), sobre o assunto e, que, a nosso ver, encerra o assunto: é do padre Nuno Sanches, de Matosinhos, e que diz o seguinte: Como sacerdote católico, sei o que a Igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Matosinhos), no cemitério da qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedida nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se.
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Por tudo isso, Florbela Espanca tem sido considerada, com muita justiça, a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo, cuja temperatura de confidência só encontra semelhança nas Cartas de Amor de Mariana Alcoforado.
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Cansada de suplicar, a Morte é o próximo passo (como Antero, no soneto Com os mortos): Deixai entrar a Morte, a iluminada/ A quem vem para mim, pra me levar/ Abri todas as portas par em par/ Como asas a bater em renovada.
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A tragédia da impossibilidade de comunicar um amor incorrespondido foi, portanto, a grande tragédia de Florbela Espanca, compreensível (se é que há compreensão para essas coisas) na fusão das duas personalidades da poeta numa só: a artista e a amante.
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É neste sentido que o mencionado Tormento do ideal, de Antero de Quental, pode ajudar a derramar alguma luz sobre sua alma trágica.
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¹Laury Maciel (1924-2002) foi escritor, autor de Pedra dos Anjos e Noites no sobrado, entre outros, livros e professor de Literatura Portuguesa.

²Antero Tarquírio de Quental (1842-1891), grande poeta português, figura polêmica, ativista político, teve grande influência sobre a geração de intelectuais da segunda metade do século XIX e início do século XX. Poeta notável, seu livro mais importante é Sonetos completos (1866). Esteve em Paris em 1868, onde conheceu Michelet Proudhon, de quem passou a comunhar das idéias socialistas. Suicidou-se em 1891 com um tiro de revólver, em plena praça principal da cidade de Ponta Delgada, nos Açores.
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Escolhidos por mim, aqui estão os dois sonetos de Florbela Espanca, os quais, no momento, encontram-se em plena empatia com a minha alma…
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Impossível
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Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta - Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar, d’olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe…
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O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por’star contente! Pois então?!…”
Quando se sofre o que se diz é vão…
Meu coração, tudo, calado ouviste…
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Os meus males ninguém mos adivinha…
A minha Dor não fala, anda sozinha…
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!…
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Os males d’ Anto toda a gente os sabe!
Os meus… ninguém… A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!…
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In Livro de Mágoas - Julho de 1919.
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Sem remédio
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Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou…
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.
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E é desde então que sinto este pavor;
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
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Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
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E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!…
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In Livro de Mágoas - Julho de 1919.

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E ainda mais…
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Créditos:
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- A imagem exibida neste post foi retirada daqui.
- Texto: Poesia de Florbela Espanca, v.1/ Florbela de Alma da Conceição Espanca. - Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 5 - 12.
- Vídeo: YouTube.
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Este post faz parte da Blogagem Coletiva: Uma festa para Florbela, elaborada pela autora do blog Interlúdio, com o propósito de homenagear a poeta Florbela Espanca - Florbela se estivesse viva, completaria hoje mais um ano de vida. Aproveito esta oportunidade para parabenizar a Flor por esta iniciativa e agradecer a mesma pela oportunidade que me deste de também poder participar desta blogagem coletiva, pois para mim, é uma honra homenagear a Florbela… esta poetisa que eu tanto admiro!
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2 comentários:

Ana Carolina Braga disse...

Flor,

o post ficou lindo por aqui! =P

Adorei!

EternaApaixonada disse...

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É um lindo post!

Parabéns Ana Carolina!

Parabéns Flor ♥!

Meu carinho a vocês

Helô

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